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Sábado, 23 de Junho de 2007

Fragmentos dela. dele e às vezes dos outros (2)

Ambos partilhavam todos os seus momentos livres com o computador navegando na Internet.
E um dia, marcado pelo destino – propósito da Previdência desconhecido por ambos – cruzaram-se numa troca de mails.

A escrita dela revelava-a doce, meiga. Ele era sedutor na mensagem. Logo a empatia emergiu entre os dois. Geraram palavras de brotar sentimentos camuflados nas suas vidas rotineiras.
Noutro dia – já marcado por eles, propósito desconhecido da Previdência - saltaram para o lado de fora do écran, escolhendo um sítio conveniente para ambos onde o aroma do café se misturava com fumo de cigarro.

Ele sorrira e ela viu-lhe os dentes já um pouco gastos pelos anos. Ela retribuiu-lhe o sorriso, permitindo que ele percebesse as rugas ao canto da boca que já não eram rugas de expressão. Quando ele tirou os óculos, os mesmos que ela vira na foto, estremeceu com os seus olhos grandes, demasiado afastados que lhe ofereciam algumas semelhanças com um sapo. A pele ligeiramente flácida do pescoço dela complementavam a mesma idade dos sulcos dos cantos da boca.

No principio o acabrunhamento habitual provocado pelos fluidos passados no instante que não se controla (ah, o quotidiano da palavra escrita não é o mesmo da palavra falada). A primeira - a palavra - é pensada, manipuladora. A segunda, perde-se trocada pela sua espontaneidade No dia a dia não se diz o que se queria dizer mas quando se diz, a partir do momento em que se diz, está dito.

Olá
Olá.
Tudo bem?
Tudo bem.
Risos….e a conversa que não vinha. Ambos olharam para o relógio ao mesmo tempo.

Não te disse nada mas surgiu-me um imprevisto mesmo há pouco. A minha tia caiu da escada. A minha mãe pediu-me para lhe fazer umas compras. – disse ela.

Ele fingiu um certo transtorno mas no fundo as palavras dela surgiram-lhe como um alívio de tempo contrariado.

Mais dez minutos para não parecer mal. Pensaram os dois. Sempre tinham algumas afinidades. Disseram adeus, seguindo caminhos opostos.

A palavra escrita de um para o outro tinha acabado. Voltaram a matar o tempo da solidão atrás da máquina de fazer palavras, de inventar sentimentos, navegando calmamente nas imagens virtuais da net.
da Leonor

publicado por leonoreta às 08:10

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4 comentários:
De mac a 24 de Junho de 2007 às 17:23
Os encontros através da net têm destas coisas. É como dizes: a palavra escrita é diferente da falada. Na escrita, construímos 1 personagem. Pode ser coincidente com aquilo que somos, mas há 1 discurso trabalhado, as palavras surgem rodeadas de magia. E depois há 1 expectativa construída à volta dessa personagem, e quando finalmente a conhecemos na realidade, o castelo de cartas desmorona-se.


De alexiaa a 24 de Junho de 2007 às 19:04
Já comentei este post mentalmente a primeira vez que o li, agora já não consigo:)
É muitooo real!



De Arte por um Canudo a 26 de Junho de 2007 às 00:35
Mas a net tem este encanto de fazer parecer aquilo que não é. Pelo menos essa réstea de esperança fica em cada um de nós e podemos ao menos ser aquilo que gostariamos de ser.Como dizes a palavra escrita não é o mesmo que a palavra falada mas cada uma com o seu encanto..como sempre a tua palavra escrita é doce e cheia de emoções que prende qualquer um ao ecrã.Bjs


De cm a 27 de Junho de 2007 às 09:05
...reduzir o todo ao particular é o mesmo que aglutinar todas as cores pensando que se faz assim o arco iris...um beijo


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