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Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (4)

Em primeiro lugar quero agradecer à Lusitana ter-me inserido na sua corrente da amizade e pelas palavras bonitas com que indiciou estes Improvisos.

Lusitana, eu não faço a escolha de blogs devida porque não conseguiria dormir se deixasse algum de fora.

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Sempre que ela entrava naquele espaço branco a paz que ela desejava invadia-lhe os sentidos.

  

Poucos móveis. Apenas os necessários. Poucos objectos. Quase nenhuns. Não eram precisos. Ela gostava assim. O silêncio da privacidade de quatro paredes.

 

As cortinas transparentes, ora deixavam passar os raios de sol quando os dias eram claros ora o cinza deslavado dos dias nublados. Em frente, o rio corria sempre na mesma direcção. Às vezes frenético, às  vezes  calmo, levando sempre consigo destroços de madeira. Naquele dia ele abriu as portas da varanda e juntos no varandim apreciaram aquelas águas meio lamacentas.

- Gostei do que  escreveste.- disse ela.

- Gostaste? Escrevi para ti.

 

Naquele espaço branco tudo era calmo e bom.

 

Leonoreta

 


publicado por leonoreta às 14:36

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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

À volta do nosso eu

Há uma pessoa que me conhece como a palma da sua mão. É a Fernanda. Ela sabe o meu interesse por algumas coisas e a minha indiferença por outras,  a minha maneira de me entregar e a minha maneira de desistir.

 

Vi a Fernanda pela primeira vez no liceu quando passei para o 9º ano (antigo 5º do curso geral). Partilhávamos os mesmos amigos mas não nos falávamos. De certo modo, a Fernanda afastava as raparigas por ser bonita e roubar namorados. Muito mais alta do que eu, o seu ar celta de cabelos claros contrastava com o meu ar de moura, de cabelos escuros.

 

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Sempre tive a mania de chegar sempre cedo. Porém, cheguei atrasada no meu primeiro dia de aulas de Setembro de 1976. Já conhecia o liceu e descobrir a sala foi fácil. Com quinze anos não batia às portas. Abri-as simplesmente na minha atitude mais selvagem. E quando abri a porta vi uma sala cheia de gente pela qual eu não morria de amores e cujo lugar vago era ao lado da Fernanda. Nessa turma estava também o homem que viria a casar comigo.

 

Foi por acaso que ao fim de alguns dias – muitos – começámos a falar, descobrindo que até nos dávamos bem, apesar de nunca termos simpatizado uma com a outra ate então. Íamos ao cinema, à praia, jogávamos crapot. A Fernanda foi madrinha do meu casamento e madrinha dos meus filhos quando  fizeram a promessa de  lobitos nos escuteiros. Ela nunca casou.

 

Quando eu pensei que os meus filhos já não precisavam tanto  de mim voltei aos bancos da escola e fui para a universidade. Nesse tempo, a Fernanda mudou-se para o Algarve. Já não a vejo há doze anos. Uma vez por ano eu felicito-a pelo aniversário e um mês depois ela felicita-me a mim até ao ano seguinte.

 

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Recentemente, num seminário de psicologia fizemos um jogo. Num círculo púnhamos “eu”. E à volta do nosso “eu” várias rodas em vários círculos em duas, três, quatro filas. A primeira fila pertencia às pessoas que estão perto de nós. A segunda e as restantes às que já não estão. Teríamos de rodear as pessoas que já não estão perto de nós e que  queríamos telefonar ou ver.

 

Telefonar, telefonar… não. Mas ver…sim. E desenhei vários círculos no nome da Fernanda.

Leonoreta

 


publicado por leonoreta às 14:10

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Atrás de Emilio

Nos primórdios da antropologia, alguns nomes conceituados da referida ciência, que não quero aqui revelar por várias razões, sendo uma delas a minha ignorância parcial sobre o assunto, escreviam sobre o conceito de cultura, dando como exemplo vivências de certos povos, sem nunca saírem do gabinete. Até que um dia, alguém se lembrou de abrir a janela do referido gabinete e ver que havia mundo lá fora, decidindo sair pela porta para escrever sobre os Papua da Nova Guiné. Hoje em dia sabemos mais sobre a vida dos Papua que propriamente quantas marcas de detergente para a louça há no supermercado.

Depois de um ano difícil em que trabalhei e ainda estudei, ainda me encontro, no mês de Agosto, a trabalhar numa proposta de dissertação que Bolonha estipulou para cinco páginas no mínimo com entrega em data marcada.

Copiando os primeiros antropólogos elaborei a proposta no meu gabinete e do meu gabinete eu fundamentei as larachas que quero impingir com alguns artigos de opinião pesquisados na Internet, onde vinha mencionada bibliografia. Depois ia desanuviar a cabeça para a praia.

Todavia, nunca encontrei a editora de Emilo ou da educação de Jean Jacques Rousseau.

À laia de Bolonha, mandei o meu trabalho por mail à minha orientadora que mandou logo  um RE, dizendo: Levante-se da cadeira (não era bem assim que ela queria dizer) saia de casa e procure  o livro nas bibliotecas ou em qualquer livraria.
Na Fnac não havia e na Bertrand nem constava nos catélogos on line.
- Quais são as probabilidades de haver um exemplar caido atrás da estante?- perguntei.
- Nenhumas. - responderam-me de forma tão peremptória que nem insisti.

No dia a seguir levantei-me cedo. O barco ia vazio, o metro ia vazio e tudo na universidade estava fechado menos a biblioteca e a tesouraria. Perguntei por Emílio à senhora do balcão e pela cota fui à procura dele. Encontrei-o em dois volumes magrinhos, já muito sarrabecos de folhas amarelo torrado. É provável que tenha sido um dos primeiros livros a povoarem as prateleiras daquela universidade.

Verifiquei que as lombadas tinham uma bola vermelha. Não podia levá-los portanto e esquecer-me deles na minha estante para fingir que os lia. Sei onde se coloca o chip que me denunciaria à saída se eu os enfiasse dentro da mala mas essa coisa chamada consciência, que nem Freud soube lá muito bem o que era, atrapalhou-me a acção. A reprografia estava de férias e só me restava comprar um cartão na tesouraria e meter as mãos à obra.

Por quatro vezes solicitei a ajuda preciosa (contrariada a partir do segundo chamamento) da senhora do balcão. A máquina não tinha folhas, a máquina reduzia-me as letras, a máquina copiava dos dois lados, debitando-me logo duas fotocopias de uma vez, a máquina tirava-me as fotocopias pretas. Aiiiiiiiiiiiiiiiii que nervos.

Gastei um cartão de cem fotocópias e a senhora do balcão nunca trabalhou tanto num dia de Agosto (em que toda a gente está de férias) como naquele dia.
Leonoreta

publicado por leonoreta às 10:11

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (3)

Subiram o monte, em passos vagarosos. Fingiam-se interessados na paisagem mas na verdade estavam mais interessados em cada gesto e em cada olhar do outro.

Chegaram ao cimo. Pequena igreja pintada de branco. Subiram os degraus. Portadas de madeira em forma de ogiva fechavam-se à curiosidade do escasso público que por ali andava, impossibilitando a contemplação da beleza dos vitrais das janelas, só possível de se admirar pela luz dada do exterior para o interior do santuário.

Passearam pelo terreiro. Um enorme arvoredo cobria todo o monte em redor. Caminhavam lado a lado muito perto um do outro e a pouca distância convidou-o a colocar a mão por cima do ombro dela.

O dia estava frio e embora ela estivesse enfarpelada no seu casaco sentia-se gelar, cruzando os braços para não deixar escapar o pouco calor do corpo que ainda lhe restava.

Ele continuava com o braço por cima dela e puxou-a mais para si. Devagar, deu-lhe um beijo na face. E outro e mais outro. Aos poucos virou-a para si e beijou-a na boca. Ela estremeceu. A paisagem desapareceu.

Ele beijava-a e ela estremecia. Como nos romances.

Leonoreta


publicado por leonoreta às 10:28

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

A "biciclêta" da Leonoreta

 

 

Comprei uma bicicleta. Devia ter comprado uma lambreta eu sei. Mas se eu fechar o E de bicicleta com um acento circunflexo (biciclêta) também rima com Leonoreta.

A minha bicicleta é linda. Rosa claro fluorescente. Quando a vi foi amor à primeira vista.

- Leonor…olha, tu não andas de bicicleta há muito tempo…
- Vinte anos. – Confirmei eu.
- De modo que as coisas, nomeadamente a tecnologia ciclista, evoluíram muito desde essa altura.
- Sim. – Mostrava-me atenta.
- Há vinte anos a tua bicicleta só tinha duas rodas e um volante…
- E uma campainha. – Disse eu com ar de troça.
- … e agora tem mudanças e tal que precisas de conjugar conforme se a estrada é a subir, a descer ou plana.  - O meu interlocutor igonorou o meu sorriso sarcástico.

Palavra de Honra! Eu sei andar de bicicleta mas lá deixei o meu interlocutor explicar-me como funcionavam as mudanças. Ele há cada um.

- Leonor…
- Sim.
- Ouve com atenção porque isto é muito importante.
- Sim.
- Nunca uses o travão da frente. Se tiveres de travar usa o de trás que funciona aqui com a mão direita. Não uses o da esquerda.
- Então porquê? – desde criança que sou curiosa e  gosto que me expliquem as coisas.
- Porque a bicicleta trava de repente e tu és projectada para alguns metros à frente.
- Cinco? Vinte? Cinquenta? – Imaginei-me a voar por cima do volante da bicicleta e até dei duas gargalhadas.

Como em metodologias sociológicas, nada melhor para testar uma hipótese do que fazer observação participante, in locco. O percurso foi de Almada à Costa da Caparica. Vinte e dois kilómetros. Onze, para lá, praticamente a descer, onde deu para experimentar as mudanças mais pesadas e onze no sentido inverso, sempre a subir, onde deu para experimentar as mudanças mais leves.

Quando chego à Costa flauteio pelo paredão, cruzando-me com outros ciclistas de fim de semana, maçaricos como eu. Vejo o mar e os mais afoitos a mergulharem, às oito da manhã nas águas geladas da Caparica. Bebo um café no barzinho da dona Sabina que conhece toda a gente, inclusivé a mim... faço mais uma tentativa de subir para a bicicleta à militante da resistência francesa: pé esquerdo no pedal, pé direito ao lado do esquerdo e opsss! Mesmo antes de alçar a perna direita já perdi o equilíbrio. Ainda não é desta que consigo imitar a minha heroína que levava sempre a melhor do fuhrer alemão: Mademoiselle X.

Começo o percurso para casa. É difícil. Sempre que mudo de mudança a bicicleta passa-se dos carretos e fico a pedalar no ar, fazendo bailados à Charlot. Por duas vezes, nas subidas mais íngremes, levei a bicicleta a pé. Estou cada vez mais perto de casa. Faltam apenas cinquenta metros. Vou confiante. Saio da estrada e entro no passeio.
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Encontro-me estatelada no meio do chão. Levantei-me com o corpo a doer e com a alma a sangrar... de orgulho ferido. Entrei obliqua no passeio, o pneu resvalou, a bicicleta inclinou-se e eu fui pelo ar.

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- Leonor… esqueci-me de dizer-te mas além do travão da esquerda também há o problema de entrares nos passeios de lado…
- Sim. Essa já sei. - E afastei-me toda empenada.


Leonoreta

publicado por leonoreta às 09:39

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