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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

fragmentos dela, dele e às vezes dos outros. (17)

Ou era o chão que estava torto ou era a estante que estava coxa.

Quando ela puxou um livro que teimava em não sair de entre o aperto de outros livros, a estante oscilou para a frente e a caixa de cartão enfeitada de flores rosa onde ela guardava  fotografias soltas caiu da ultima prateleira  e todo o seu conteúdo se espalhou pelo chão.

Fotos analógicas, em papel brilhante e papel baço, do tempo em que não se pensava em digital. Algumas tinham escritos o local a data por trás. A maior parte delas tiradas com a sua máquina kodak oferta dos pais quando fez doze anos. Automática, sem velocidades e sem aberturas.

- Olha para mim!- gritou ela com a máquina apontada para ele. Ele olhou e ela disparou.- agora tira-me uma a mim!

- Encosta-te ao canhão para apanhar parte do Paço pelas ameias do castelo. – disse ele.

Depois alguém lhes tirou uma foto juntos mas no meio de tanta foto solta  ela não achava essa. Ficou a olhar aquelas duas, perguntando se lá no céu ele estaria a ver as fotos com ela.

 

Leonoreta


publicado por leonoreta às 14:04

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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

O mar agitado

Atravessar o Tejo no cacilheiro é uma aventura, principalmente quando o rio está levantado. O barco oscila, de tal modo, que me agarro a tudo para não cair. Ainda assim, subo para o primeiro andar. Se houver naufrágio sou das últimas pessoas a morrer afogada. Procuro um banco que tenha salva vidas e sento-me numa ponta para não ter de pedir licença para sair se a hora for de aflitos.

 

O barco oscila. Leio para me abstrair de sentimentos obscuros mas só penso na água gelada porque nadar eu sei. Nadar é como andar de bicicleta. Depois dos primeiros pirolitos ou  das primeiras quedas já não nos afogamos nem caímos mais, supostamente. Vou ficar sem a minha mochila e sem o meu portátil. Claro que o seguro não paga se eu os perder. Aliás, nem tenho seguro dessas coisas. Nem dessas,  e muito menos de mim própria.

 

Passo a folha do livro sem a ter percebido. Na dificuldade em pensar na segurança do meu corpo a minha alma dispersa-se. O barco oscila. Leio. Ou faço que leio. Passo as folhas. De frente para trás. De trás para a frente.

 

Duas vozes atrás de mim afastam-me do nervoso miudinho de pensar que vou ficar sem os meus haveres e estragar a minha roupa nas águas lamacentas de espuma oleosa.

São duas mulheres. Falam da nota vinte que os filhos tiveram a matemática

– Ele foi sempre assim desde pequeno, com dois anos já sabia ler.

- O meu só teve dezoito. Nisso sai ao pai. Mas teve um vinte a português. Nisso sai a mim.

 

Fico com inveja de não ser tão inteligente.

 

Quando uma fala a outra cala-se. Não para ouvir a sua interlocutora mas para pensar no que vai dizer de si quando a outra se calar. É um monólogo fechado em ruídos no qual ninguém ouve e ninguém diz nada.

 

O barco bate furiosamente contra o batelão e eu levanto-me de repente, agarrando a minha mochila, pensando que o momento do afogamento tinha chegado. O meu pânico é imediatamente repreendido por olhares inquisidores. Afinal já tínhamos chegado.

da Leonoreta


publicado por leonoreta às 20:33

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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

O terceiro porquinho

(este artigo já foi escrito o ano passado, tratando-se de um trabalho de ´pos graduação)

 

A propósito de uma cadeira de psicologia, comecei a ler o livro Inteligência Social, de Daniel Goleman,  como geralmente leio todos os livros que não são considerados romances ou contos e que, pela habitual apresentação da acção,  nos obrigam a uma leitura linear, do principio ao fim, respeitando a cronologia do acontecimento.
 
Precisava de fazer uma apresentação oral sobre um dos capítulos, e assim, olhei para o índíce, começando a minha leitura pelos títulos que me despertavam mais interesse. Curiosamente foi logo  o capítulo 2  da primeira parte, intitulado “Receita para uma relação” que determinou a minha escolha. Entre duas viagens de comboio e quatro de barco, aproveitando o tempo morto dos transportes que me levam e trazem do emprego, eu li toda essa parte e escolhido, definitivamente, o tema que orientaria a minha apresentação, com a preocupação de  entrelaçá-la com algum aspecto da minha experiência pessoal, tal como fora exigido pelo professor da cadeira.
 
O fio orientador da parte referida tem por base o processo da  sincronia. O autor define a sincronia como  um sentido natural do ritmo, uma noção do tempo exacto que faz com que duas pessoas ou um grupo entre numa equivalência emocional sentindo toda a emoção do outro, e percebendo de antemão o sentido do discurso do outro. Quando emissor e receptor estão em sincronia a mensagem torna-se clara e prazenteira. (pág. 52 a 56). Por outras palavras, o emissor consegue através da emoção transmitida na sua mensagem estabelecer um contágio com o receptor fazendo com que o seu sentimento seja sentido por quem está a ouvi-lo, de tal modo que, também o receptor continua ou dá ênfase à mensagem como se os dois, emissor e receptor entrassem numa dança.
 
            Geralmente, experimento sempre o que Daniel Goleman entende por sincronia sempre que conto uma história aos meus alunos e recentemente passei por uma situação engraçada.
Sou professora do 1º ciclo. Este ano tenho uma turma do 3º ano de um bairro social muito carenciado com uma história de mau comportamento que as acompanha desde o 1º ano. De facto, os alunos são mal comportados e eu própria deparei-me com um enorme problema de indisciplina no primeiro mês de trabalho.
 
Levei algum tempo a perceber a estratégia certa para os trazer mais calmos até que a achei. Eles continuam um caso muito sério de comportamento na escola, entre si no recreio, e nas actividades extracurriculares com os outros professores, mas comigo não.
 
Já fui questionada pelas estratégias usadas com eles. Eu não faço nada de especial.  Simplesmente conto-lhes histórias e transporto-os para um universo que eles não têm.  Mesmo quando estou a dar as áreas curriculares como a Língua Portuguesa, a Matemática e o Estudo do Meio entrelaço tudo numa história. E tudo corre sobre rodas,   tanto  para eles como para mim.
 
Penso que ao planificar as aulas como sendo uma história, arranjei  metade da receita para uma relação. A matéria dos livros tem pontos aborrecidos pelos quais sei que sou perdoada na medida em que os meus alunos já perceberam que eu não sou a dona das leis e se me mandam ensinar adjectivos e números primos, eles só terão de os aprender. Mas depois tudo é compensado a cem por cento na hora do conto.
 
Há livros em que o texto, embora avançando na acção, se repete enfantizando determinado aspecto. A primeira vez é minha, dita de tal modo, que a segunda vez e restantes são dos alunos, percebendo-se logo no ritmo emprestado do corpo e das expressões faciais deles, a imitação da fala, do movimento e da emoção. Os espelhos neurais estabelecem a sincronia entre mim e os meus alunos.
 
            O episódio que eu quero contar prende-se com a história dos três porquinhos. Alguns alunos levam livros deles para serem lidos na aula. E uma vez uma aluna traz-me “Os três porquinhos”.
- Mas tu já conheces esta história. – disse eu.
- Sim. Mas eu quero que tu a leias. – disse ela
 
Lembrei-me imediatamente que tinha em casa uma luva que  contava a história dos três porquinhos e que,  curiosamente, nunca a tinha utilizado. A luva tinha nos cinco dedos o lobo, os três porquinhos e a casinha. Até ao segundo porquinho o relato do conto decorreu normalmente até chegar ao terceiro porquinho que coincidia com o dedo médio. De repente fui apanhada de surpresa pelo gesto obsceno e, por momentos, fiquei sem saber o que fazer, sentindo algum embaraço. Do mesmo modo os alunos fecharam-se num silêncio atroz acompanhando-me no espanto.
Baixei a mão e preguei os olhos no chão. E de repente uma aluna levanta-se da cadeira, chega ao pé de mim e diz-me, querendo salvar-me da situação incómoda.
 - Professora, a culpa é do terceiro porquinho.
Leonoreta

publicado por leonoreta às 21:19

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