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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (20)

Ela atravessou descuidadamente a passadeira sem tomar as precauções devidas com o trânsito como sempre fazia. Reparou num carro que se aproximava e, rapidamente, seguiu em frente. O condutor chamou-a pelo seu nome. A voz familiar fê-la parar, fazendo-a voltar para trás.
- Que surpresa! – disse ela.
Por coincidência iam para o mesmo sítio. Andaram por ruas e travessas até chegarem ao destino. Ele perdia-se constantemente. Ela achava graça.
O tempo gasto na distância percorrida era preenchido com palavras aqui e ali.
- Olá! – disse ele, olhando nos olhos dela
- Olá. – respondeu ela sorrindo, sabendo que aquele olá era uma maneira que ele tinha cortar conversas banais.
E a conversa mudou de rumo, tornando-se mais pessoal, mais íntima. Uma música ensurdecedora começou a tocar. Depois parava, recomeçando pouco depois, repetidamente. Era impossível eles estarem ali. Foram embora. Andaram um pouco pela rua até deixarem de ouvir aquela música. Depois disseram “até um dia”.
Mais tarde, ela lembrou-se que não lhe tinha dito que tinha gostado de estar com ele.
Leonoreta

publicado por leonoreta às 16:51

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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Voltei a ler

Voltei a ler.
Isto é, voltei a ler coisas  como  ficções, daquelas que não são verdade mas que até podiam ser e, numa linha ou noutra, encontramos algo de semelhante com a nossa vida.
 
A Maria, a minha colega da sala ao lado emprestou-me  “Tréguas” de Mário Benedetti. Gostei muito sim senhor. Aliás, já o tinha dito.
Mas agora a pausa à espanhola acabou-se e senti –me obrigada a voltar às pedagogias, ao aluno ideal, ao professor ideal, ao ensino ideal, ao ministro ideal, ao ordenado ideal.
 
Na segunda feira, entreguei o livro de Benedetti à Maria com algum pesar.
- Gostaste? – perguntou-me ela
- Sim. Muito.
- Vou arranjar-te outro. Ainda estás a precisar.
 
E no dia seguinte, a Maria entrou na minha sala, que está sempre de porta aberta a qualquer invasão, infantil ou adulta, e deu-me em mãos um novo livro, desta vez mais grosso que o anterior: a vida de PI de Yann Martel.
 
- Para ver se acreditas em Deus de uma vez por todas. – disse-me ela.
 
Será possível que o meu niihilismo seja assim tão evidente no meu olhar, no meu andar, nos meus gestos… porque de boca não digo nada. Ou se digo, não noto.
 
A vida de Pi.
Já passei as páginas de apresentação. As mais chatas de qualquer livro. Já entrei na acção. Estou a gostar. O herói é tão indefeso quanto eu. Não vou conseguir lê-lo até ao fim. A grossura da lombada mete respeito e as letras são pequenas. A Maria é professora contratada e vai-se embora daqui a pouco da escola. Fiquei com o mail dela mas sei que nunca mais vou vê-la. Ou então, se a encontrar vai ser por acaso.
 
 
Leonoreta
 

publicado por leonoreta às 19:56

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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Foi sem querer

Quando escrevo TPC no quadro de ardósia preta anuncio também o fim da aula. Ou quase o fim da aula pois os últimos quinze minutos são dedicados ao desenho livre.

 

O desenho livre para os alunos do 1º ano do 1º ciclo é uma espécie de grito à liberdade. Não gostam de ter um tema e já descobri porquê: no desenho livre desenham o que sabem como sabem. No tema sugerido pela professora ocorre a frustração de não saber desenhar o que se pede tal como a coisa é. Dou uma ajuda no quadro, dizendo que não sei desenhar. É verdade. Eles animam-me: está giro. E copiam.

 

Em compensação, os alunos do 3º já não gostam muito do desenho livre. Será porque o conhecimento da escrita vai substituindo, aos poucos, a expressão iconográfica, a única possível quando não se sabe escrever?

 

Fazer desenho significa que começou a feira. Na hora dedicada à expressão plástica os alunos ficam mais descontraídos e trocam entre si impressões, algumas vezes acerca do trabalho que estão a fazer, mas outras vezes falam de assuntos de casa. Mesmo que a professora diga que se deve falar baixo, acaba sempre por se instalar alguma balbúrdia. Fazer desenho é também a altura de trocar afectos através do empréstimo de canetas e lápis. O cor de pele é o mais cobiçado. Apesar de todos possuírem canetas, as do vizinho são sempre mais bonitas e pintam sempre melhor.

 

Durante a elaboração de um desenho, o Francisco e a Maria, divertiam-se a juntar sílabas.

- Mala, mela, mila, mola mula. – disse a Maria

- Mila é o nome da minha mãe. – disse o Francisco. – Agora sou eu. Fala, fela, fila, fola, fula,

- Pata, peta, pita, pota, puta. – tomando consciencia do que disse a Maria põe a mão na boca aflita.

 

Eu escrevia os sumários mas estava a ver e a ouvir tudo. Fingi que não ouvi mas senti o olhar da Maria na minha direcção. Logo depois era ela que estava junto de mim com os olhos rasos de lágrimas.

- O que foi? – perguntei-lhe, continuando a escrever no Livro de Ponto.

- Professora… eu estava a brincar com o Francisco às sílabas e disse uma asneira sem querer.

- Que asneira? – desta vez olhei para ela.

 

E a Maria repetiu a asneira muito baixinho em que se percebia só o movimento dos lábios.

- Maria, foi sem querer. Estás a aprender a escrever as palavras. Ainda vais conhecer mais. Há palavras boas e más. Depois também aprendes a separá-las. Agora vai arrumar.

 

 

Leonoreta


publicado por leonoreta às 21:46

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