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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

A "biciclêta" da Leonoreta

 

 

Comprei uma bicicleta. Devia ter comprado uma lambreta eu sei. Mas se eu fechar o E de bicicleta com um acento circunflexo (biciclêta) também rima com Leonoreta.

A minha bicicleta é linda. Rosa claro fluorescente. Quando a vi foi amor à primeira vista.

- Leonor…olha, tu não andas de bicicleta há muito tempo…
- Vinte anos. – Confirmei eu.
- De modo que as coisas, nomeadamente a tecnologia ciclista, evoluíram muito desde essa altura.
- Sim. – Mostrava-me atenta.
- Há vinte anos a tua bicicleta só tinha duas rodas e um volante…
- E uma campainha. – Disse eu com ar de troça.
- … e agora tem mudanças e tal que precisas de conjugar conforme se a estrada é a subir, a descer ou plana.  - O meu interlocutor igonorou o meu sorriso sarcástico.

Palavra de Honra! Eu sei andar de bicicleta mas lá deixei o meu interlocutor explicar-me como funcionavam as mudanças. Ele há cada um.

- Leonor…
- Sim.
- Ouve com atenção porque isto é muito importante.
- Sim.
- Nunca uses o travão da frente. Se tiveres de travar usa o de trás que funciona aqui com a mão direita. Não uses o da esquerda.
- Então porquê? – desde criança que sou curiosa e  gosto que me expliquem as coisas.
- Porque a bicicleta trava de repente e tu és projectada para alguns metros à frente.
- Cinco? Vinte? Cinquenta? – Imaginei-me a voar por cima do volante da bicicleta e até dei duas gargalhadas.

Como em metodologias sociológicas, nada melhor para testar uma hipótese do que fazer observação participante, in locco. O percurso foi de Almada à Costa da Caparica. Vinte e dois kilómetros. Onze, para lá, praticamente a descer, onde deu para experimentar as mudanças mais pesadas e onze no sentido inverso, sempre a subir, onde deu para experimentar as mudanças mais leves.

Quando chego à Costa flauteio pelo paredão, cruzando-me com outros ciclistas de fim de semana, maçaricos como eu. Vejo o mar e os mais afoitos a mergulharem, às oito da manhã nas águas geladas da Caparica. Bebo um café no barzinho da dona Sabina que conhece toda a gente, inclusivé a mim... faço mais uma tentativa de subir para a bicicleta à militante da resistência francesa: pé esquerdo no pedal, pé direito ao lado do esquerdo e opsss! Mesmo antes de alçar a perna direita já perdi o equilíbrio. Ainda não é desta que consigo imitar a minha heroína que levava sempre a melhor do fuhrer alemão: Mademoiselle X.

Começo o percurso para casa. É difícil. Sempre que mudo de mudança a bicicleta passa-se dos carretos e fico a pedalar no ar, fazendo bailados à Charlot. Por duas vezes, nas subidas mais íngremes, levei a bicicleta a pé. Estou cada vez mais perto de casa. Faltam apenas cinquenta metros. Vou confiante. Saio da estrada e entro no passeio.
----------------------

Encontro-me estatelada no meio do chão. Levantei-me com o corpo a doer e com a alma a sangrar... de orgulho ferido. Entrei obliqua no passeio, o pneu resvalou, a bicicleta inclinou-se e eu fui pelo ar.

---------------------

- Leonor… esqueci-me de dizer-te mas além do travão da esquerda também há o problema de entrares nos passeios de lado…
- Sim. Essa já sei. - E afastei-me toda empenada.


Leonoreta

publicado por leonoreta às 09:39

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9 comentários:
De António a 3 de Agosto de 2007 às 13:01
Ah ah ah
Excelente texto, querida Leonor!
Pleno de humor, começa-se a acaba-se a sua leitura com um sorriso nos lábios.
Espero que já estejas recomposta física e animicamente do trambolhão.
E já destes mais umas voltinhas?
Vá!
Monta para a rosinha!

Beijinhos


De leonoreta a 3 de Agosto de 2007 às 13:07
rssssssssss
Rosinha?
sim porque não?
tinha pensado em Pinky mas ha que promover a língua materna.
beijinhos


De António a 3 de Agosto de 2007 às 14:38
Vou ser o padrinho?
ihihihih


De somentebia a 3 de Agosto de 2007 às 15:43
Adorei teu blog! Esta forma bem humorada de fazer a narrativa de fatos pitorescos, confesso, agrada-me muito. E tu o fazes com extrema mestria, fazendo o leitor te acompanhar nos mínimos detalhes com um grande interesse. Parabéns pelo teu espaço tão bem cuidado, e pelo teu jeitinho delicioso de nos fazer sentar e querer ouvir mais casos, sem vontade nenhuma de ir embora.

Deixo-te pétalas de mimosas flores, um beijo no coração, e os votos de um lindo final de semana.


De almapater a 4 de Agosto de 2007 às 10:44
bela viagem. Voei aos idos setentas. Tinha um primo, chamava-se Quim (vagamente parecido com arroz de feijão vermelho) que tinha uma namorada loira e pequenina. Chamava-lhe " a minha bicicleta"
Nunca vi naquilo uma vulgar alusão de índole sexual.
O que retenho, é o som. Soava sempre a " minha bsssssecreta".
Ou da roda ser 24 ( ele tinha bem 1,80 de altura), ou da loirice, caiu da bicicleta abaixo várias e uma vez em definitivo. Ela fugiu com um corredor da volta a Portugal...
Hoje o meu primo ( Jaquim, mais apropriado) só anda a pé.


De leonoreta a 4 de Agosto de 2007 às 13:17
bom dia almapater
nunca imaginei ninguem parecido com uma comida. arroz de feijao nao me é particularmente agradavel. muitas so nas minhas idas ao norte ele vem parar-me ao prato e , gentilmente, abandono-o na integra sem querer saber de mais nada.
por isso, julgando-o por mim calculo que arroz de feijao tambem nao será do seu agrado.
beijinhos


De alexiaa a 5 de Agosto de 2007 às 22:11
Amei a descrição do teu passeio, eu sou assim..amo descriçoes sem me importar com o exagero da palavra nos contextos:)
Olha...andei de bicicleta ha umas semanas. Cheguei de madrugada a casa, estacionei o carro no parqueamento do predio e..."roubei" uma bicicleta dum vizinho e por ali circulei até...me estatelar no chão tambem:))).

Beijêtas!


De somentebia a 6 de Agosto de 2007 às 15:57
Vim conhecer mais um pouco do teu espaço e quero dizer que gostei muito dos dois "Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros", muito bem construídos e analisados por ti, fiéis ao que na realidade acontece com muitos relacionamentos via net.

Deixo-te pétalas e um beijo no coração, com votos de uma semana iluminada de alegria e paz.


De somentebia a 12 de Agosto de 2007 às 15:45
Não encontrei um novo post, mas encontrei o mesmo prazer de leitura ao (re)ler outros escritos teus. Como escreves bem, minha amiga! É incrível a facilidade que tens ao se expressar. É como se estivéssemos à tua frente, vendo-te narrar casos com tanta mestria como tu fazes.

Estou deixando mil pétalas de lindas rosas, um beijo no teu coração e votos de um lindo domingo.


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