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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (14)

- De que cor é a tua lingerie? – perguntou ele.

Ela ficou surpresa pela pergunta e sorrindo respondeu:

- É branca.

- É sempre branca?

- Não necessariamente. Às vezes é azul clara. Às vezes é creme. – ela baixou os olhos para brincar com o copo vazio, rodando-o sobre a mesa.

 

Ele ainda bebia o copo de leite e comia o bolo. Àquela hora da tarde ainda não tinha almoçado, dissera ele.

 

- De algodão? – ele engolira o último bocado de bolo.

- Porquê de algodão?

- Lembrei-me… vestes essas roupas meio hippies…

 

Era uma pastelaria um pouco antiga, familiar, meio escondida numa esquina entre duas ruas de um bairro ligeiramente movimentado. Ele acendeu um cigarro e alguém lhe pediu lume. Ela continuava a sua brincadeira com o copo mas agora olhava para ele.

 

- Dormes de pijama?- continuou ele ao mesmo tempo que expelia o fumo do cigarro.

- Eu o quê? – ela ria  incrédula com as perguntas que ele lhe fazia.

 

Ele esperava pela resposta com um ar falsamente sério, cofiando a barba grisalha que lhe dava um ar tão sedutor.  Ela demorava a resposta, divertida e envergonhada ao mesmo tempo.

 

- Estou a gostar muito de estar aqui a conversar contigo. – disse ele – mais do que da primeira vez.

 

Também ela estava a gostar. Tanto como da primeira vez.

Leonoreta

 

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publicado por leonoreta às 19:04

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8 comentários:
De António a 21 de Setembro de 2007 às 19:49
Querida Leonor!
Esta tua série dos "Fragmentos" tem textos muito bem caçados.
Este é um deles.
Quem se lembraria de fazer um post com um diálogo destes?
Só alguém talentoso como tu.
Gostei!
Parabéns!

Beijinhos


De alexiaa a 21 de Setembro de 2007 às 20:33
Eu gostei essencialmente do final. Têm um sentido dúbio girissimo...

Ficabem!


De almapater a 22 de Setembro de 2007 às 01:46
Que mergulho! O que é admirável nela, é essa intuição tão segura, que deixa claro e inequívoco, que não há nem subjugado, nem sublimado, um naco de sexo, na inesperada abordagem dele. Por ali, só há um grito de intimidade, uma constatação de cumplicidade, uma comunhão que se faz da pureza dos algodões brancos, dos cetins cinzentos acianados, e dos nylons cor de carne. A extensão do olhar, mesmo quando perdido em noites de trevas escuras que nem breu, faz-se na alvura do linho, aqui ou ali, maculado de estopa (que importa, a pureza é sempre pura), mesmo que o assunto, seja cuecas a corar.

Ele não é mau tipo, ela é sublime. Comidos a colher de café. Aos fragmentos.


De leonoreta a 22 de Setembro de 2007 às 09:47
ola almapater
é provavel que a ideia de algo para além de... tenha sempre pairado na cabeça de ambos. Contudo, sempre fora dos parâmetros banais, comuns, optando pela pureza de caminharem de mãos dadas, como diz.
beijinhos


De Lusitana a 22 de Setembro de 2007 às 12:33
Hummmm... esta história sabe tão bem :)
É verdade, parece um fragmento de outras histórias de vida...
beijinhos e bom fim de semana *


De Arte por um Canudo a 24 de Setembro de 2007 às 11:27
Mais um excelente texto baseado num fragmento da vida. Lindo. O diálogo simplesmente genial.Bjs


De heretico a 24 de Setembro de 2007 às 16:39
dir-se-ia que não há uma primeira vez, sem segunda.

também eu gosto. do teu texto . muito.


De pedro alex a 24 de Setembro de 2007 às 17:56
A timidez do diálogo intriga-me.
Aliás, ainda não li nenhum “Fragmento” teu que não me intrigasse.
Será normal querer-se saber mais do que o que está escrito?
Sei lá, também não me interessa saber dessa normalidade ou não, mas que fico com vontade de saber muito mais, ai lá isso fico.
Bj


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