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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Fragmentos dela, dele e às vezes dos outros (18)

Era outra vez Natal. Quando ela era pequena gostava do Natal. O Natal era-lhe sinónimo de prendas. A mãe colocava-as junto da árvore à medida que elas iam aparecendo lá em casa. Esta é da tia para o pai. Esta é da mãe para ti. Ela não abria nenhuma caixa. Sempre fora obediente. Além disso, gostava de ver os embrulhos de papel vistoso e fita larga e torcida, mas numa curiosidade quase mórbida queria saber antes do dia destinado ao desfazer dos laços o que lhe tinham comprado. Nunca abria uma caixa mas instigava a mãe de modo sistemático, insistentemente. De que cor é? É quadrado? Tem cabelos? Diz a primeira letra. E agora quantas letras tem?

A mãe trocava-lhe as voltas mas o que ela queria era o soslaio do olhar, o passo em falso no sorriso.

 

- Dá-me uma prenda de Natal. Faz-me um desenho. – disse ele.

- Não é fácil fazer um desenho. Para mais, eu não sei desenhar. – disse ela.

 

Ela desenhava como as crianças. Todos os seus traços eram naif. Contudo, ela fê-lo.

Uma clareira no meio de uma floresta, um céu azul sem nuvens. Apenas três pássaros ao longe. Ele e ela de frente um para o outro, sentados no chão,  na partilha de uma merenda.

 

Ele olhava o desenho.

 

- Não vais pendurá-lo por cima da mesa de cabeceira? – perguntou-lhe ela ironicamente.

 

- Nota que não te vou fazer uma crítica,  apenas uma constatação.  É sem duvida um espírito infantil o que preside ao desenho.  Adoptaste o Universo das crianças porque constitui  um espaço de fuga.   "A arte da fuga"  é uma constante nos artistas que só varia no modo e nas preferências.  Imaginário infantil e até a própria arte de não dizer mas, sugerir, como acontece nos teus textos,  faz me lembrar o Pessoa quando diz:  "a arte é uma confissão de que a vida não basta".   A ti não só não te basta como ainda por cima te aflige. 

 

Ela ouvia-o de sobrolho franzido. Um dia quis experimentar saltar para a vida e para as pessoas numa transparência de fazer doer. Quando quis retroceder era tarde demais.

Leonoreta


publicado por leonoreta às 15:46

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6 comentários:
De meldevespas a 20 de Dezembro de 2007 às 17:11
Gostei muito deste texto que aqui deixaste hoje.
Muito bonito, e muito profundo na sua aparente leveza.
A minha costela de Peter Pan, vibrou com as tuas palavras.
Amei1
Um beijinho de boas festas


De mac a 20 de Dezembro de 2007 às 21:32
Todos temos o nosso quê de Peter Pan nesta época, especialmente quando nos relembramos dos Natais da nossa infância...


De António a 20 de Dezembro de 2007 às 21:55
Querida Leonor!
"...e até a própria arte de não dizer mas sugerir, como acontece nos teus textos...".
Um texto autobiográfico na parte inicial do regresso à infância. Ou não é verdade?
Depois, uma introspecção feita por interposta pessoa.
Confesso que não estou a ver a ligação das duas partes...pelo menos de forma clara.
Mas é um bonito texto!

Beijinhos


De heretico a 20 de Dezembro de 2007 às 23:52
texto límpido e sensível. gostei muito.

que o teu Natal se cumpra...



De pedro alex a 21 de Dezembro de 2007 às 16:16
A arte é gira com Loucura, ou Paixão.
Mais importante que abordar o traço que até define um estilo, seria mais importante elevar o espírito Romântico da cena bucólica. Indeciso entre apreciar a obra dela no Naturalismo ou Romantismo, não vejo a luminosidade do desenho, se fosse eu, tratava era de propocionar à fuga dela um caminho direito a mim:)
Bj


De sophiamar a 22 de Dezembro de 2007 às 13:33
Deixo-te votos de um Bom Natal, em família, com saúde, alegria, paz, pão na mesa...
Mil beijinhos do Algarve para a beira-Tejo.


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